O que é uma amizade? Poderíamos defini-la como sentimento de afeição, estima consideração, afeto,
amor, apego, etc. São nossos amigos todos aqueles cuja felicidade nos faz sentir felizes e cujas
tristezas nos entristecem; pelos amigos sentimos aquilo que sentimos em relação a nós mesmos.
Mas será que toda amizade está embasada na simpatia, na probidade? Será que todo amigo é de fato
o “alter ego”? Alguns dirão, com certeza, que só sentiremos o mesmo que sentimos em relação a nós
mesmos pelos amigos verdadeiros. Eis, então, a problematização deste texto: existem amigos
verdadeiros e amigos não verdadeiros?
Sou da opinião de que há pessoas que são amigas e pessoas que, mesmo fazendo parte da nossa
convivência – e, por vezes, até da nossa intimidade – não o são. Em síntese, ou é amigo ou não é.
Não existe amigo não verdadeiro, muito menos meio-amigo: uma pessoa é objeto da nossa estima, do
nosso afeto, da nossa consideração, ou não o é.
Muitas pessoas do nosso convívio nos parecem ser amigas – suas atitudes nos levam à a creditar
nisto, e até elas próprias também costumam acreditar – porém, não são. Vejamos o caso daqueles
“amigos” que se comprazem com nossos infortúnios: os chamados gozadores que zombam folgadamente
dos nossos desconfortos; muitos desses desconfortos são causados diretamente por eles para o seu
próprio deleite. São falsos amigos que, muitas vezes, como já dissemos acima, nem têm consciência
de que estão nessa condição.
Na família, na escola, no trabalho, nos clubes, nas festas sempre há um falso amigo tentando nos
ver (ou nos tornar) o mais desconfortável possível. Quantas “brincadeiras”são impingidas com o
claro objetivo de causar ofensa, de incomodar?
Essas“brincadeiras”, se analisadas à luz da psicanálise, certamente revelam sentimentos de despeito,
de inveja, de rancor, por parte de quem as promovem. Na verdade, não são brincadeiras, porque só
se pode considerar brincadeiras as atitudes que divertem todas as partes envolvidas: se houver
pelo menos uma das partes se sentindo incomodada com tais atitudes, então não é brincadeira.
Há, entretanto, um segundo grupo de falsos amigos: são pessoas que demonstram atitudes de amizades
na nossa presença e na nossa ausência se comportam como inimigos: são os hipócritas. São pessoas
desonestas, infames, mentirosas. Ao contrário dos primeiros, estes têm consciência da sordidez
das suas atitudes. Há, ainda, aqueles que se enquadram nos dois grupos: às vezes têm consciência
do seu comportamento pérfido, outras vezes não o percebem.
O fato é que toda falsa amizade é movida pelo egoísmo. Amizade é, sobretudo, partilha, solidariedade,
satisfação com o sucesso do outro... A falsa amizade é uma inimizade não declarada, velada,
disfarçada e potencial.