Livro: A Prateleira do Amor – Valeska Zanello (Autora).
Vocês já repararam no que Úrsula diz pra Ariel enquanto ela tenta conquistar o prÃncipe? Eu não lembrava disso, mas lendo o livro A prateleira do amor de Valesca Zanello, ela fala dessa cena que é absurda! Ariel vai até a bruxa do mar pra tentar conquistar um homem e a bruxa propõe um acordo: Ela ganharia pernas, mas perderia a voz e quando Ariel questiona tipo assim: Vou perder minha voz? A bruxa responde: Pra quê voz, se você tem quadris? E ela canta: "O homem abomina tagarela, garota caladinha ele adora, se a mulher fica falando o dia inteiro e fofocando o homem se zanga diz adeus e vai embora. Não, não vá querer jogar conversa fora, que os homens fazem tudo pra evitar. Sabe quem é a mais querida? É a garota retraÃda e só as bem quietinhas vão casar." Algumas pessoas podem dizer que isso é inofensivo, mas isso é uma aula, uma verdadeira pedagogia e é sobre o que as meninas aprendem desde cedo que pra ser amada tem que ficar calada. É aqui que entra o conceito de tecnologias de gênero criado por Teresa de Lauretis, que ela explica que essas tecnologias são os meios, tipo filmes, desenhos, músicas, novelas, propagandas pelos quais a gente aprende a performar o que é ser mulher e o que é ser homem. Elas não só representam valores, mas ensinam a senti-los, a repeti-los, a desejá-los e é exatamente isso que acontece com Ariel, ela literalmente precisa abrir mão da própria voz, dos amigos e da famÃlia pra ser amada, pra ser escolhida. A gente cresce achando que é só entretenimento, mas tudo isso molda o que a gente sente, o que a gente espera e até o que a gente aceita. E nas histórias das meninas o enredo é quase sempre o mesmo, a coisa mais importante da vida é conquistar um homem e pra ser escolhida você precisa aprender a silenciar, a não parecer difÃcil, a não incomodar. Valeska também traz no livro o exemplo de a bela e a fera, uma moça que se apaixona por um monstro e com muito esforço e dedicação consegue transformá-lo em um prÃncipe encantado. Quantas vezes a gente já ouviu isso na vida adulta? Ele só precisa de alguém que o ame do jeito certo. A responsabilidade é da mulher de cavar fundo até encontrar dentro de uma criatura tenebrosa o seu prÃncipe. E é assim que a gente aprende a romantizar a dor, a achar que suportar o insuportável é sinônimo de amor verdadeiro, que terminar uma relação é fracassar como mulher. Enquanto isso, os meninos aprendem outra lição, pra eles a principal tecnologia de gênero é a pornografia. Eles são ensinados a provar masculinidade dominando, conquistando, objetificando, enquanto as meninas aprendem a amar caladas, eles aprendem a amar controlando. No fim, ninguém sai inteiro. As mulheres porque precisam engolir a própria voz e os homens porque precisam matar a própria sensibilidade. Eu recomendo muito a leitura da prateleira do amor. Ela traz muitas reflexões valiosas sobre o que a gente aprende, repete e nem percebe que aprendeu.
— .(Escrito dia 01/04/2026, às 15:53).


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